Farra da desinformação
:: A solução é simples: colocar na internet o nome de quem usa as passagens e a razão da viagem. Mas como solucionar a farra da desinformação e da má-fé? ::
Nas últimas semanas, senão todos os veículos de comunicação, pelo menos a maioria deles fez a maior agitação sob a expressão "farra das passagens". É impossível acompanhar tudo o que divulgam os inúmeros órgãos e empresas de comunicação do país, mas é de se imaginar que o noticiário nacional tenha sido repercutido pela maioria de rádios, jornais e TVs regionais e locais. A internet não ficou atrás.
Ocorre que a farra das passagens virou a farra da desinformação, da generalização, da má-fé. Não vou entrar no mérito do certo ou errado, do legal ou ilegal, do moral ou imoral. Dou apenas um exemplo de como coisas diferentes foram tratadas como se fossem iguais. Tratou-se do assunto como se tudo fosse farinha do mesmo saco.
Vejamos: 1) Há o parlamentar que usou a cota de passagens para viagens de familiares; 2) Há o parlamentar que transportou namorada e pretensa sogra, ou seja, pessoas que não são parentes; 3) O que viajou a passeio e usou milhas para que a esposa viajasse com ele; 4) O que viajou a trabalho e a esposa o acompanhou, usando passagem da cota; 5) O que viajou a trabalho e a esposa o acompanhou, porém para a passagem dela foram usadas milhas; 6) O que foi lesado por funcionário corrupto, que vendeu as passagens da cota parlamentar para outrem, geralmente para uma agência de viagens.
Há casos que podem, sim, ser considerados imorais. Infelizmente, nenhum deles é considerado crime, pois, como disse o presidente da Câmara dos Deputados, não havia regras.
Como todos os parlamentares foram tratados como criminosos, creio que os que mais perderam foram aqueles lesados por seus funcionários corruptos. Saíram no noticiário como quem farreava com as passagens, e sequer sabiam que estavam sendo lesados no próprio gabinete.
A solução para o que ocorreu na Câmara é muito simples: definir a regra de uso e a cota de passagens de cada parlamentar e obrigá-lo a dar transparência à sua utilização, via internet. Ou seja, colocar na internet o nome de quem usa as passagens e qual a razão da viagem.
Com isso, solucionamos a "farra das passagens". Mas como solucionar a farra da desinformação e da má-fé? A solução para ambas é mais difícil. Infelizmente, não há um conselho que analise a ética jornalística através do qual o cidadão poderia registrar suas queixas e pedir apuração.
Lembremos que alguns jornalistas e empresários travestidos de jornalistas criticaram e impediram a aprovação de uma lei que tratasse do tema. Parte da corporação reagiu em defesa de si própria, com se não cometesse erros, crimes e injustiças.
A desinformação, às vezes, também é resultado da própria ignorância do jornalista ou radialista. Na conturbada semana da "farra das passagens" e da desinformação, conversei com um radialista. Disse a ele que algumas esposas de deputados viajaram usando as milhas acumuladas por elas ou mesmo pelos deputados, em viagens anteriores. Ele me perguntou o que é "milha".
Ora, se um profissional da informação, que contribui com a formação da opinião pública, não sabe o que é milha, dá para imaginar qual foi a cobertura feita por ele sobre o tema. Eu não imagino, eu sei o estrago que causou na reputação de alguns.
Nem todos que me leem nesse momento sabem o que são milhas. A cada dez viagens por uma empresa aérea, o passageiro ganha geralmente uma outra viagem. Também podem somar pontos para contar como milhas de viagem a conta de telefone e o uso do cartão de crédito ou débito, por exemplo. Algumas viagens são feitas com esses pontos acumulados.
Como acabar com a desinformação? Não basta o jornalismo ser exercido por uma pessoa bem informada, é necessário que as empresas de comunicação sejam democráticas, plurais, e que, caso cometam algum crime, sejam punidas.
Estamos longe disso, mas um passo importante foi dado pelo presidente Lula ao convocar a primeira Conferência Nacional de Comunicação (Confecom). A conferência nacional, que terá etapas prévias municipais e estaduais, será realizada no próximo mês de dezembro em Brasília, com o tema "Comunicação: meios para a construção de direitos e de cidadania na era digital".
Ser bem informado é um direito. Desinformar é crime.
Dr. Rosinha, médico pediatra, é deputado federal (PT-PR) e vice-presidente brasileiro do Parlamento do Mercosul.
dr.rosinha@terra.com.br
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